Levítico (Leviticus)

 

Sempre fui um grande fã de filmes de terror que usam o sobrenatural para falar sobre dores muito reais da nossa sociedade. Quando ouvi falar pela primeira vez de Levítico (título original: Leviticus), confesso que minha curiosidade foi lá no alto. Acompanhar histórias pesadas e bem contadas é algo que valorizo bastante, e este longa australiano lançado em 2026 entregou exatamente essa mistura de tensão psicológica, drama e puro desconforto. 

Com uma nota na casa dos 6,4 no IMDb e uma aprovação estrondosa de 95% no Rotten Tomatoes durante sua passagem por festivais, o filme não chegou para brincadeira. Ele pega um tema extremamente sensível e o transforma em uma experiência assustadora.

Qual é a premissa do filme Levítico e por que ele chama tanto a atenção?

A história acompanha dois adolescentes, Naim e Ryan, em uma pequena e isolada comunidade evangélica no interior da Austrália. Conforme os dois começam a se apaixonar e explorar essa atração, acabam sendo descobertos pelas lideranças religiosas do local. É aí que a trama engata de forma brutal: na tentativa de purificar os jovens, a igreja submete os garotos a um severo ritual de cura gay. 

Só que o ritual dá terrivelmente errado. Em vez de afastar os sentimentos dos meninos, a cerimônia acaba libertando uma entidade maligna sobrenatural. E essa força tem uma dinâmica perversa: ela toma a forma da pessoa que a vítima mais deseja no mundo para atacá-la violentamente. Se o Naim sente atração pelo Ryan, a entidade aparece para o Naim vestindo a pele do Ryan para espancá-lo e traumatizá-lo. É uma metáfora cruel sobre como certas estruturas tentam fazer a pessoa sentir medo do próprio amor.

Quem está no elenco de Leviticus e como foi a produção?

Por trás das câmeras, quem comanda o navio é o diretor e roteirista Adrian Chiarella, fazendo uma estreia brilhante em um longa-metragem. A produção ficou nas mãos da Causeway Films, a mesma produtora responsável por sucessos absurdos como O Babadook e Fale Comigo. 

No elenco, a química e o talento dos atores principais sustentam o peso da história:

·         Joe Bird: interpreta o jovem Naim. Ele já tinha entregado uma atuação espetacular no suporte em Fale Comigo, e aqui assume o protagonismo com maestria. 

·         Stacy Clausen: vive o Ryan, entregando uma atuação emotiva e vulnerável. 

·         Mia Wasikowska: interpreta a mãe de Naim, Arlene. Ver uma atriz do calibre dela em um projeto independente como este dá uma casca gigantesca para o filme. 

·         Nicholas Hope e Ewen Leslie: completam o elenco em papéis que representam a autoridade e a pressão da comunidade. 

As filmagens aconteceram no interior rural do estado de Vitória, na Austrália. As paisagens abertas, porém desoladas, criam uma sensação constante de isolamento. Para coroar o clima de tensão, a trilha sonora original foi composta por Jed Kurzel (que já trabalhou em Alien: Covenant), além de incluir faixas marcantes como "Self Control", do Frank Ocean, que se encaixa perfeitamente na temática da obra.

Quais são as melhores curiosidades e bastidores da obra?

Se você curte saber o que rola por trás das telas, Levítico tem detalhes fascinantes:

·         Estreia com aplausos em festivais: O filme teve sua grande première mundial no Festival de Sundance de 2026, na disputada mostra Midnight, onde foi aclamado e rapidamente comprado para distribuição internacional. 

·         A origem do nome: O título é uma referência direta ao livro de Levítico na Bíblia. É uma das passagens mais utilizadas por grupos fundamentalistas para condenar a homossexualidade. O roteiro brinca com a ironia de transformar o dogma religioso em uma maldição real. 

·         Processo de criação bizarro: O diretor revelou que a ideia da entidade assumir a forma do desejo não veio de fórmulas tradicionais de roteiro, mas sim de exercícios de escrita livre e associação de ideias. 

·         Inspirado por um clássico moderno: A dinâmica da ameaça que persegue e só pode ser vista pelas vítimas lembra muito o excelente Corrente do Mal (It Follows), criando uma atmosfera sufocante de paranoia. 

Qual é a minha crítica sincera sobre o filme Levítico?

Para mim, o grande mérito de Levítico é não usar a dor dos personagens apenas como um artifício apelativo de choque. O diretor Adrian Chiarella entende que o terror verdadeiro não está apenas nos sustos ou no monstro sobrenatural, mas no trauma psicológico causado pela rejeição e pela intolerância. 

O ritmo do filme é calibrado. Ele não tem pressa de entregar os momentos mais violentos. A direção prefere construir a angústia aos poucos, mostrando garotos que deveriam estar descobrindo a vida e o amor, mas que são forçados a lutar contra uma ameaça que usa o próprio sentimento deles como arma. A atuação de Joe Bird é visceral, e a fotografia soturna transforma a comunidade em um ambiente onde ninguém está realmente seguro. 

É uma obra corajosa, que combina drama de amadurecimento com um terror autêntico e inteligente. Se você gosta de produções que provocam discussões reais e saem do lugar comum no cinema de gênero, Levítico é parada obrigatória.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe um comentário sobre o filme e compartilhe com seus amigos.