Lembro perfeitamente da primeira vez que sentei no sofá para assistir a A Bruxa. Eu esperava aquele terror tradicional de cinema, cheio de sustos fáceis e monstros pulando na tela a cada cinco minutos, mas o que encontrei foi algo completamente diferente. O filme me pegou pelo estômago de um jeito desconfortável, criando uma tensão silenciosa que vai queimando em banho-maria até o final.
Se você curte cinema
de verdade e quer entender por que esse longa virou uma referência do gênero na
última década, vou te contar todos os detalhes dessa obra sem rodeios.
Qual
é o contexto inicial e a história de A Bruxa?
Lançado mundialmente
nos cinemas em 2016 (após fazer barulho nos festivais em 2015), o
filme tem como título original The
Witch: A New-England Folktale (frequentemente estilizado como The VVitch). Na época em que conferi sua recepção no
público, vi que ele mantinha uma nota justa no IMDb em torno de 7.0/10, o que reflete bem como ele
divide opiniões entre quem busca ação rápida e quem prefere um suspense
psicológico denso.
A trama se passa na
Nova Inglaterra por volta de 1630. Uma família puritana liderada pelo pai,
William, é expulsa de sua comunidade religiosa por divergências ideológicas.
Eles se mudam para uma área isolada na beira de uma floresta fechada e sombria.
A rotina de trabalho duro na terra logo vira um pesadelo quando o bebê da
família desaparece misteriosamente sob os cuidados da filha mais velha,
Thomasin. A partir daí, a paranoia, a escassez de alimento e a culpa religiosa
começam a corroer aquela família por dentro.
Embora a história se
passe nos Estados Unidos, a locação real das filmagens aconteceu nas florestas
remotas de Kirtland, na província de Ontário, no Canadá. Essa
escolha trouxe um isolamento visceral para a tela, com árvores cinzentas e um
clima frio que você quase consegue sentir do outro lado da tela.
Quem comanda a direção
e faz parte do elenco?
A grande mente por
trás desse projeto é o diretor Robert
Eggers, em sua estreia épica em longas-metragens. Eggers é famoso
pela obsessão por detalhes históricos, e aqui ele entregou um trabalho
impecável de reconstituição de época.
No elenco, o destaque
absoluto vai para Anya
Taylor-Joy, que interpreta a jovem Thomasin. Esse foi o papel que
projetou a carreira dela para o mundo, e a atuação é absurdamente convincente.
O pai da família é vivido por Ralph
Ineson (William), dono de uma voz grave marcante que passa toda a
austeridade e o peso de um homem tentando sustentar sua casa no machado e no
suor.
Completam o núcleo
principal a atriz Kate
Dickie (como a mãe Katherine, em um papel angustiante) e o jovem Harvey Scrimshaw (como o irmão Caleb), que entrega uma
das cenas de possessão mais impressionantes e incômodas do cinema recente.
Por que a trilha
sonora e as curiosidades de bastidores chamam atenção?
Um dos pontos mais
fortes da experiência de assistir a esse filme é a sua parte sonora. A trilha
sonora foi composta por Mark
Korven, que tomou uma decisão ousada: banir qualquer instrumento
eletrônico ou sintetizador moderno. Ele usou apenas instrumentos de cordas e
sopro antigos, como a nyckelharpa
sueca e o waterphone, acompanhados por um coral de vozes
dissonantes. O resultado é uma sonoridade assustadora que parece vir direto do
folclore medieval.
Além da música, os
bastidores do longa são repletos de fatos interessantes:
·
Diálogos reais do século XVII: Quase todas as falas dos personagens foram retiradas
diretamente de diários, cartas e relatórios judiciais da época da caça às
bruxas.
·
Luz natural: Para manter o realismo, Eggers filmou quase tudo utilizando apenas a
iluminação do sol, do céu nublado ou de velas dentro da casa.
·
O bode Black Phillip: O bode preto que virou ícone do filme se chamava Charlie
na vida real. Ele era tão arredio e agressivo no set que chegou a chifrar o
ator Ralph Ineson durante as gravações, mandando o ator para o hospital.
Qual é a minha
crítica sobre A Bruxa e quais foram suas premiações?
O reconhecimento do
mercado veio rápido. O filme venceu o Prêmio de Melhor Direção no Festival de Sundance de 2015
e faturou dois prêmios no Independent
Spirit Awards (Melhor Primeiro Filme e Melhor Primeiro Roteiro).
Na minha visão, o
grande mérito de A Bruxa
é a forma como ele aborda o terror. Não se trata apenas de uma entidade na
floresta, mas da ruína moral de um homem que vê seu papel de provedor ruir
diante da natureza e do desconhecido. A liderança do pai vai se desfazendo à
medida que a fome e o medo tomam conta, mostrando como a rigidez e a falta de
flexibilidade podem destruir um lar.
Eggers constrói uma
atmosfera sufocante onde o verdadeiro perigo é a desconfiança entre a própria
família. É um filme sóbrio, direto, que respeita a inteligência de quem está
assistindo e entrega um desfecho poderoso sobre libertação e sombras. Se você
aprecia uma boa narrativa de suspense com peito e substância, é uma pedida
obrigatória para a sua lista.
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