Com 60 anos nas costas, resgatar certas memórias da infância exige um exercício curioso de nostalgia e honestidade. Lembro de assistir a esse clássico na televisão, sentado na sala de casa, com o olhar fascinado de quem via um gigante verde cruzar a tela. Recentemente, resolvi reassistir ao piloto para confrontar as impressões daquela criança com a visão que tenho hoje.
O contraste foi inevitável. Mas, mais do que os defeitos técnicos que o tempo escancarou, a revisão me trouxe uma surpresa melancólica: a trilha sonora. O famoso tema no piano ("The Lonely Man", de Joseph Harnell), tocado nas cenas de solidão e tristeza do Bruce Banner perambulando pelas estradas, me atingiu em cheio. Foi impossível não fazer uma ponte direta com a sensação de dor e desolação que senti anos mais tarde ao zerar Final Fantasy VII na emblemática cena da morte da Aerith. Aquele sentimento de perda e isolamento é exatamente o mesmo.
Qual é o contexto de lançamento e
onde O Incrível Hulk foi exibido?
Lançado originalmente em 1977, O Incrível Hulk nasceu como um filme feito para a televisão nos Estados Unidos, servindo de piloto para a famosa série que dominaria a programação nos anos seguintes.
Apesar de ser um projeto de TV nos EUA, em diversos países — e na memória de muita gente — ele chegou a passar pelas telas do cinema antes de virar atração fixa na telinha. Atualmente, a obra ostenta uma nota 7.0 no IMDb, um número bastante respeitável para um telefilme de super-herói daquela década.
Quem são os criadores e o elenco por
trás da produção?
O filme, cujo título original é The Incredible Hulk, foi escrito e dirigido por Kenneth Johnson, o homem responsável por dar um tom sóbrio e dramático ao personagem das HQ's. Rodado em locações no estado da Califórnia, nos Estados Unidos, o longa contou com um elenco enxuto e marcante:
· Bill Bixby: Dr. David Banner (o nome Bruce foi alterado pela produção para a TV)
· Lou Ferrigno: O Incrível Hulk
· Susan Sullivan: Dra. Elaina Marks
· Jack Colvin: Jack McGee (o repórter obsessivo)
Quais curiosidades e prêmios marcam o
legado da obra?
No quesito premiações, o longa não levou grandes estatuetas do cinema clássico, mas colheu indicações no Prêmio Primetime Emmy para a série derivada. O verdadeiro prêmio foi o legado imaterial que deixou para a cultura pop.
Entre as curiosidades mais marcantes, vale notar que o fisioculturista Lou Ferrigno nem era a primeira opção para o papel do monstro verde; Arnold Schwarzenegger chegou a ser cotado, mas acabou recusado por não ser alto o suficiente. Outro detalhe curioso é a alteração do nome do protagonista para "David", pois os produtores achavam o nome original das HQs ("Bruce") pouco comercial para a televisão da época.
Como a crítica atual avalia a
qualidade do longa?
Tentando equilibrar o olhar daquela criança do passado com o senso crítico do idoso de hoje, preciso admitir: o filme é tosco em muitos aspectos. As transições de vestimenta quando o Hulk se transforma beiram o cômico, os "defeitos especiais" são datados e as atuações, por vezes, soam bem profundas no drama do Bill Bixby, mas engessadas no restante do elenco.
Se compararmos a força e a capacidade de destruição do Hulk de 1977 com
as cenas de ação absurdas dos filmes atuais do Universo Cinematográfico Marvel,
o monstro de Lou Ferrigno parece quase inofensivo. No entanto, aos leitores que
enxergam além do espetáculo visual, resta a capacidade de admirar a criação da
obra. Fazer tanto com tão poucos recursos — sem nenhuma tecnologia
computacional — exige um mérito absurdo. Foi essa simplicidade funcional que
construiu a base do personagem na mídia e sustentou o legado gigante que ele
carrega até hoje.
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