Shrek Terceiro sempre me passou a sensação de ser o irmão do meio que tenta, a todo custo, manter o nível da família, mas acaba tropeçando nas próprias pernas. Quando parei para rever esse filme recentemente, com a intenção clara de entender onde ele acertou e onde derrapou, percebi que a reação da galera não foi exagerada. Shrek 1 e 2 definiram o que deveria ser uma animação nos anos 2000, com aquele humor ácido que fazia a criança rir e o adulto gargalhar de verdade. Já o terceiro capítulo tenta entregar a mesma energia, mas acaba entregando algo mais morno.
Lançado nos cinemas em 2007 com o título original de Shrek the Third, o longa teve a difícil missão de suceder um dos maiores clássicos da Animação. Dirigido por Chris Miller e co-dirigido por Raman Hui, o filme trouxe de volta o elenco de dublagem consagrado com Mike Myers (Shrek), Eddie Murphy (Burro) e Cameron Diaz (Fiona), além da adição de Justin Timberlake como o jovem Artie. No IMDb, a recepção morna se reflete na nota, que gira em torno de 6,1 de 10. Ele chegou a receber indicações ao BAFTA e ao Annie Awards, mas passou longe de arrematar o Oscar de Melhor Animação como o primeiro filme conseguiu.
Abaixo, troco uma ideia mais detalhada sobre como esse longa se desenrola e se vale a pena gastar duas horas do seu dia com ele.
Como Shrek 3 tenta dar
continuidade à franquia?
A premissa do filme parte de um dilema genuinamente masculino que muita gente prefere evitar: a responsabilidade. O Rei Harold adoece e Shrek se vê prestes a assumir o trono de Tão Tão Distante. O problema é que a última coisa que um ogro quer é usar coroa, cumprir obrigações burocráticas e viver preso em um castelo. Para fugir dessa bomba, ele descobre que existe outro herdeiro legítimo, o jovem Arthur Pendragon (Artie), que estuda em um colégio distante.
Shrek parte em uma viagem de resgate ao lado do Burro e do Gato de Botas para encontrar o garoto e repassar a coroa. O grande problema é que, no meio dessa travessia, Fiona revela que está grávida. Esse é o verdadeiro gatilho do filme: o pavor do protagonista de se tornar pai. Paralelamente, o Príncipe Encantado resolve virar o jogo, reúne todos os vilões rejeitados dos contos de fadas e organiza um golpe de estado em Tão Tão Distante. A ideia inicial é boa e cria um cenário de pressão interessante para o ogro.
Onde a narrativa de Shrek 3 acaba
tropeçando?
O grande xis da questão está no ritmo e no desenvolvimento dos personagens. Enquanto Shrek 2 tinha uma estrutura impecável e piadas afiadas a cada minuto, o terceiro filme parece confuso sobre qual caminho seguir. O arco do jovem Artie não engrena da forma que deveria. O garoto é meio apagado, e a tentativa de construir uma relação de pai e filho (ou mentor e aprendiz) entre Shrek e ele parece forçada em vários momentos.
A trilha sonora continua sendo um ponto forte, mantendo a tradição da franquia de misturar pop e rock alternativo. Temos faixas marcantes de bandas como Led Zeppelin (com "Immigrant Song" na cena das princesas), Eels e Wolfmother, o que dá uma levantada bacana no clima de algumas cenas de ação. O visual da animação, produzido nos estúdios da Pacific Data Images (PDI) em Redwood City, na Califórnia, deu um salto técnico absurdo na época, especialmente nas texturas das roupas e nos cenários. Mas, infelizmente, um bom visual e uma boa seleção musical não cobrem totalmente as brechas de um roteiro menos inspirado.
Quais são as melhores curiosidades
sobre os bastidores?
Apesar das falhas de roteiro, a produção tem detalhes interessantes que valem a pena destacar para quem curte cinema:
· O encontro nos estúdios: Justin Timberlake e Cameron Diaz namoravam na vida real quando começaram as gravações das vozes originais, mas terminaram antes de o filme estrear nos cinemas.
· Técnica de ponta: A equipe de animação precisou criar softwares novos para simular o movimento dos cabelos e das roupas do público nas cenas do teatro do Príncipe Encantado.
· O Rei Harold: A sequência da morte do Rei Harold, transformado em sapo, é recheada de referências musicais e homenagens ao rock clássico, sendo um dos momentos mais divertidos da produção.
· Cenas deletadas: Existia uma ideia original onde Shrek e Artie enfrentavam uma versão satirizada da Távola Redonda antes do confronto final, mas a cena acabou cortada para encurtar o tempo de tela.
Vale a pena assistir Shrek Terceiro
hoje em dia?
Minha crítica sincera para a obra é: Shrek 3 não é um filme horroroso, mas é nitidamente o elo mais fraco da franquia principal. Ele perdeu boa parte daquela acidez anárquica que satirizava a Disney com propriedade nos dois primeiros filmes e passou a se comportar como uma animação comum. O Príncipe Encantado funciona muito bem como alívio cômico mimado, mas como vilão principal, não sustenta o peso da ameaça.
Por outro lado, o filme tem momentos genuinamente engraçados. O pesadelo de Shrek com dezenas de bebês ogros é hilário e retrata muito bem o pânico da paternidade. O grupo das princesas (Cinderela, Branca de Neve, Bela Adormecida e Rapunzel) assumindo o controle da situação para fugir da prisão também entrega ótimas piadas.
Se você quer passar o tempo e maratonar a saga completa, ele cumpre o
papel de transição para o quarto filme. Mas, se a ideia for rever apenas o topo
do topo das animações, os dois primeiros longas continuam sendo imbatíveis.
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