Quando o assunto é a franquia Final Fantasy, minha ligação vem de longa data. Eu já era homem feito, casado e com dois filhos nas costas quando madrugava para zerar o Final Fantasy VII, o VIII e o IX no primeiro PlayStation. Dividir o tempo entre as obrigações da casa, o trabalho e as horas encarando a TV do quarto para salvar o planeta era um malabarismo surreal, mas aquela mistura de ficção, aventura e emoção compensava cada minuto. Por isso, quando soube que a história iria para as telas de cinema, ir ao cinema não era apenas uma opção, era quase um compromisso pessoal.
Como surgiu a ideia desse filme e quem esteve
por trás da produção?
A mente por trás dessa empreitada foi ninguém menos que Hironobu Sakaguchi, o próprio criador da franquia nos consoles. Ele assumiu a direção do longa ao lado de Moto Sakakibara. Sakaguchi queria provar que era possível criar um filme de ação e ficção científica feito 100% em computação gráfica fotorrealista, algo totalmente revolucionário para a época.
Para colocar essa ideia em prática, a equipe se instalou nos estúdios da Square Pictures em Honolulu, no Havaí. A locação das filmagens virtuais e da pós-produção em uma ilha no meio do Pacífico serviu para isolar os artistas e animadores em uma maratona de trabalho que durou anos.
No elenco de dublagem original, o estúdio não economizou na escalação de nomes de peso de Hollywood:
· Ming-Na Wen como a protagonista Dra. Aki Ross
· Alec Baldwin emprestando a voz ao Capitão Gray Edwards
· Donald Sutherland como o sábio Dr. Sid
· James Woods no papel do antagônico General Hein
· Ving Rhames, Steve Buscemi e Peri Gilpin completando a equipe de soldados
Qual é a história de Final Fantasy: The Spirits Within e
por que a crítica se dividiu tanto?
A trama nos leva até o ano de 2065, em uma Terra devastada por um meteoro que trouxe uma raça alienígena conhecida como Phantoms. A humanidade remanescente vive em cidades protegidas por escudos de energia. A Dra. Aki Ross e seu mentor, Dr. Sid, buscam coletar oito espíritos biológicos espalhados pelo planeta para sintetizar uma onda capaz de neutralizar os alienígenas sem destruir o espírito da Terra, conhecido como Gaia. Em contrapartida, o General Hein prefere resolver as coisas na força bruta, usando um canhão espacial de alta potência.
Do ponto de vista técnico, a obra foi um espetáculo. Visualmente, a textura da pele, a física dos cabelos da personagem Aki Ross e os cenários futuristas eram de cair o queixo. A trilha sonora, composta pelo talentoso Elliot Goldenthal, deu um tom épico e dramático digno de uma grande produção de ficção científica.
Apesar disso, minha leitura crítica do filme revela um ponto cego. A obra focou tanto em ser um marco tecnológico de computação gráfica que acabou deixando de lado o charme e a alma dos jogos. Faltaram aqueles elementos de fantasia tradicional, os Chocobos, as magias e a profundidade de desenvolvimento de grupo que nos prendiam nos videogames por 80 horas. O roteiro acabou caindo em um tom de ficção científica ocidental um pouco genérico, esfriando a reconexão com quem esperava a magia clássica dos games.
O filme conseguiu prêmios relevantes e sucesso
de bilheteria?
Infelizmente, o desempenho
comercial não acompanhou a ousadia da produção. O orçamento escalou para cerca
de 137 milhões de dólares, tornando-se o filme de animação mais caro de sua
época. No entanto, a bilheteria mundial não passou dos 85 milhões de dólares,
resultando em um dos fracassos financeiros mais marcantes da história do cinema
moderno e levando ao fechamento da Square Pictures.
A aceitação do público geral também refletiu essa divisão. Atualmente, o longa ostenta uma nota 5.7 no IMDb, demonstrando que o público o enxerga como uma experiência mediana: uma obra visualmente incrível, mas narrativa e emocionalmente distante.
Quais são as principais curiosidades que
tornaram essa produção histórica?
Mesmo com o tropeço financeiro, a produção acumula histórias de bastidores que mostram o quanto ela esteve à frente do seu tempo:
· Aki Ross como atriz virtual: A Square pretendia transformar a protagonista Aki Ross na primeira atriz fotorrealista gerada por computador da história, reutilizando seu modelo 3D em outros filmes e papéis totalmente diferentes.
· A promessa da Maxim: A recepção do público à personagem foi tão realista na época que Aki Ross chegou a figurar na lista das mulheres mais atraentes da revista Maxim no ano de 2001.
· Anos de renderização: Cada cena levava horas para ser processada nos servidores da época. Apenas para renderizar os milhares de fios de cabelo individuais da protagonista, foi necessária uma equipe dedicada de renderizadores durante quase todo o processo de produção.
· Inspirador para o futuro: Apesar do fracasso nas bilheterias, a tecnologia desenvolvida em Honolulu pavimentou o caminho para o uso de captura de movimento e figurantes virtuais que Hollywood utiliza amplamente hoje em dia em grandes franquias.
Olhando para trás, a tentativa
de trazer a saga para os cinemas foi um passo corajoso. Como alguém que passou
tantas noites em claro encarando a TV e acompanhando aquelas histórias épicas
nos consoles, ver esse projeto nascer foi marcante. Não foi a adaptação
perfeita que o fã de jogos esperava, mas com certeza cravou seu nome na
história da computação gráfica no cinema.
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