Já
aviso de cara: poucos filmes no cinema mundial incomodaram tanta gente quanto Os Demônios (The Devils), do diretor Ken Russell. Lançado em 1971, o longa não é
uma produção qualquer de terror; é uma obra pesada e surpreendentemente moderna sobre
fanatismo e poder.
Com nota 7.7 no IMDb e baseado em fatos históricos narrados por Aldous
Huxley, o filme até hoje carrega o status de Cult banned, daqueles que você
assiste e fica remoendo no estômago por dias.
Por que o filme Os Demônios causou tanto
escândalo no cinema?
A trama se passa na
França do século XVII e foca no padre Urbain Grandier (vivido por um magistral
Oliver Reed), uma figura política e carismática que tenta defender sua cidade
contra o absolutismo do Cardeal Richelieu. Para derrubá-lo, o estado usa a obsessão reprimida da freira Jeanne
dos Anjos (Vanessa Redgrave), criando uma histeria coletiva de "possessão
demoníaca" e feitiçaria.
O filme usa esse delírio religioso para escancarar o cinismo de quem
usa a fé alheia apenas como ferramenta de controle político.
Quem está por trás da produção e do elenco de
Os Demônios?
A direção ousada e
barroca é do mestre Ken Russell, um cara que nunca teve medo de chocar. O elenco entrega performances insanas, liderado por Oliver Reed como
Grandier e Vanessa Redgrave no papel da Madre Superiora Jeanne.
Grande parte da rodagem rolou no lendário Pinewood Studios, na
Inglaterra, onde o cenógrafo Derek Jarman construiu cenários claustrofóbicos e
brancos que parecem saídos de um pesadelo futurista.
Para fechar o clima incômodo, a trilha sonora perturbadora do
compositor avant-garde Peter Maxwell Davies eleva a tensão a níveis quase
insuportáveis.
Quais premiações e curiosidades cercam a obra
de 1971?
Apesar das fortes
tentativas de censura por todo o globo (o Vaticano chegou a banir o filme), Ken
Russell levou o prêmio de Melhor Diretor Estrangeiro no Festival de Cinema de
Veneza e o prêmio de Melhor Diretor pelo National Board of Review. Entre as curiosidades, a Warner
Bros. cortou várias cenas consideradas explícitas demais na época — como a
famosa sequência de orgia das freiras —, e a versão integral original
permaneceu trancada a sete chaves por décadas. Além disso, os cenários de azulejos
brancos montados por Jarman foram pensados para parecerem um banheiro gigante
ou um necrotério, reforçando a sensação de insanidade estéril.
Vale a pena assistir a essa obra-prima
provocativa hoje?
Sem dúvida. A crítica a essa
obra só prova que o tempo jogou a seu favor. Os Demônios não depende de sustos baratos de sustinho
de pavor rápido; o medo aqui vem da podridão humana, do julgamento cego das massas e da
hipocrisia de figuras poderosas.
A atuação de Oliver Reed dá um tom firme ao protagonista,
mostrando um homem imperfeito, mas que prefere ser queimado na fogueira a
dobrar o joelho para a corrupção.
É um filme incômodo, esteticamente único e extremamente necessário.
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